
Por: Elle S.
Adaptada por: Andressa Lima
Capitulo Sete
Disquei os números do celular de Mel meio desesperada, e minha amiga me atendeu prontamente. Com certeza ela estava esperando por minha ligação, mesmo eu não tendo dito que ligaria. Era algo que acontecia simplesmente entre nós, sabíamos o momento certo de ligar uma para a outra. Talvez tantos anos de amizade nos permitiram que soubéssemos exatamente o que a outra precisava.
- Amiga, preciso de sua ajuda.
Com certeza. Mel sempre precisava de alguma coisa. E no momento ela queria a minha ajuda para algo bem sacana, e isso era notado pelo tom de sua voz. Pensando bem, Mel precisava mesmo era de um bom psiquiatra, coisa que eu nunca pensara antes, mas que ela já devia estar necessitada há um bom tempo.
- O que é?
- Eu estou muito em dúvida do que vestir.
Franzi a testa, tentando repassar o que eu tinha ouvido e saber se realmente tinha escutado aquelas palavras. Essa não era a Mel que eu conhecia. Geralmente era o contrário, eu ligava para ela praticamente desesperada por não saber o que vestir ou como prender o meu cabelo de um jeito legal. Mel sempre fora desapegada no que dizia respeito a moda. Sendo confortável para ela, estava ótimo. Enquanto para mim, isso sempre fizera a maior diferença, o que tornava o pedido da minha amiga ainda mais estranho.
- Você vai sair? - perguntei estranhando.
- Não, vou dormir. E esse é o problema. Meu quarto fica de frente para a sala, onde o Chay vai dormir, aí eu não sei o que vestir para o caso dele querer fazer uma investida noturna no meu quarto.
Resisti ao impulso de bater a cabeça na porta fechada. Mel perdera o controle de vez. Realmente.
- Veste um pijama e tranca a porta.
Simples e fácil. E era exatamente isso que eu faria assim que colocasse o meu pijama, pois apesar de ter dormido até poucas horas atrás, eu ainda estava com muito cansada e sabia que o dia seguinte seria dificil. Todas as segundas feiras o eram. E com o fim de ano, o jornal se tornava ainda mais difícil de lidar.
E não era só pelo jornal que a minha semana seria complicada, essa semana eu teria que cuidar de um alien desconhecido também. Alien esse que estava empenhando todos os seus esforços em me tirar do sério, coisa que não demoraria muito para que ele conseguisse.
- Não. Eu quero que ele faça a investida. Quero mais que uma investida, quero...
- OK. Veste qualquer coisa, já que sua intenção é tirar mesmo. - cortei antes que ela falasse qualquer coisa que me fizesse voltar a pensar em sexo, pois eu não conseguia tirar Arthur da cabeça, e pensar em Arthur e sexo ao mesmo tempo era perigoso demais. E me deixava ainda mais descontrolada. Quem sabe não fosse apenas Mel quem precisaria de um psiquiatra...
- Melhor uma camisola no estilo "eu sou virgenzinha" ou um baby doll no estilo "me joga na parede e entra com sua nave, garotão"?
Meu Deus! Ela perdera de vez toda a noção. Ela estava fora de si, só podia. Ou quem sabe Chay estivesse fazendo um jogo de sedução bem mais forte do que Arthur estava fazendo, para tirar Mel do sério daquela maneira. Não que algum dia ela tenha sido séria, claro. Mas dessa vez ela estava ultrapassando os limites.
- Acho melhor você tomar dois ou três comprimidos para problemas mentais. Sério.
- Estou tão em dúvida. - ela disse, me fazendo rir. Mel não tinha idéia do que estava fazendo mesmo. - Mas tudo bem, vestirei o baby doll. - bati a mão na testa sem dizer nada a ela.Mel já estava fora do controle demais para que eu pudesse dizer mais alguma coisa que piorasse a situação. - Outra coisa: chocolate ou menta?
Franzi a testa mais uma vez, sabendo que essa era a conversa mais estranha que eu tinha com ela. E isso porque já faláramos sobre coisas bem estranhas antes. Como o que aconteceria se ela fosse abduzida por chocolates em forma de tartaruga gigantes e o que fazer se Ashton Kutcher fosse gay e não apenas chegado em mulheres mais velhas.
- Que tipo de pergunta é essa?
- A camisinha. De chocolate ou mentolada?
Eu deveria desligar o telefone depressa, antes que ela ficasse ainda mais fora de controle. Eu tinha medo do que ela poderia fazer a Chay, porque estava bem claro que não era ele que estava seduzindo. Era exatamente o contrário. Quem sabe até mesmo Arthur teria que tomar umas aulas com Mel.
- Vai dormir, Mel. Tchau. Passo na loja amanhã para deixar o Arthur antes de ir trabalhar. - disse ávida por desligar o telefone e deixar minha amiga pirada sozinha com suas loucuras.
- Lua. Não se reprima.
Eu estava crente que Mel tinha bebido pelo menos uma garrafa de vinho, quem sabe cinco. Ela não citaria Menudo assim, se não estivesse bêbada. Mas como ela lembrara bem, eu era a melhor em biologia, e sabia que aquilo era apenas ansiedade e felicidade em excesso. Talvez misturada com um pouco de perturbação mental, também.
- Olha, eu não vou discutir. Vá dormir, amanhã deixo Arthur aí antes de ir para a Redação e você cuida dele até as cinco, certo?
- Certo. - respondeu. - Mas não sei se terei fôlego para cuidar dos dois. Pretendo cuidar muito bem do Chay essa noite e...
Eu deveria desligar o telefone antes que imagens de maneiras bem convenientes de cuidar de Arthur me viessem à cabeça. Oh! Tarde demais, eu já imaginava coisas muito obscenas para fazer com um alien que eu nem ao menos conhecia.
- Boa Noite, Mel.
Ela disse mais alguma coisa, mas desliguei o telefone antes que ela pudesse colocar ainda mais pensamentos pecaminosos em minha mente. Eu já tinha desses demais para pensar em camisinhas mentoladas ou com aroma e sabor de chocolate. Fazia tanto tempo que eu vira uma camisinha que nem ao menos me lembrava qual era o seu formato. Certo, mentira. Eu lembrava exatamente como era, e como era usada. Mas minha mente estava mais focada em como eu queria usá-la nesse instante com um certo cara que estava deitado no sofá de minha sala com os pés na minha mesinha de centro.
Não, eu não deveria pensar nisso. De forma alguma. E meu mantra era mais uma vez esquecido, me impedindo de pensar no que deveria que era arrumar a cama para dormir. Arrumei a cama e ainda juntei alguns cobertores e travesseiros para levar a Arthur na sala. Quase oculta pela montanha de travesseiros e cobertores, segui para a sala e coloquei os pertences no sofá em que ele estava sentado e tentei ser o mais educada possível, decidida, mais uma vez, a ignorar toda e qualquer estratégia que ele usasse para me fazer perder o controle.
Não olhei para seus pés enormes em cima da minha mesa de centro. Não olhei para o seu peito coberto apenas pelo xadrez lindo da camisa. Foquei meu olhar nos meus pés, que não eram tão interessantes quanto ele, mas pelo menos eram seguros. Não tinha como achar algo sexual nos meus próprios pés.
- Trouxe algumas coisas pra você dormir. Se quiser um pijama mais confortável, fale agora. Vou trancar a porta do meu quarto e depois disso não abrirei nem para a minha mãe.
- Costuma sempre trancar o seu quarto ou está apenas com medo de mim, Lua?
Estava com medo dele. Pronto, estava ai a resposta. Eu não trancava meu quarto, apesar de Nova York ser uma cidade perigosa, eu sempre deixava a porta de meu quarto aberta, apesar de trancar a do apartamento.
- Quer o maldito pijama ou não? – rosnei.
A minha paciência e meu controle perto de Arthur eram nulos. Eu não conseguia raciocinar perto dele. Sempre respondia a meus instintos mais animais, sempre sentia fome dele, sede dele. Eu sempre queria ter Arthur. E era exatamente por isso que era errado. Eu era uma pessoa racional, não um animal. Mas parecia que ele queria me fazer ser um animal. Dos mais selvagens, para que cedêssemos aos instintos selvagens de nossos corpos.
- Não preciso de roupas para ficar confortável.
Céus, eu poderia ter ido dormir sem essa. Agora a imagem dele, nu em meu sofá ficaria perturbando a minha mente durante toda a noite. Tchau, sono.
- Então se não quer mais nada, boa noite.
Me virei para sair da sala, ciente do que eu fora fazer na sala já havia feito e com o corpo retesado de raiva por Arthur. Aquele alien estúpido conseguia me tirar do sério sem grandes dificuldades.
- Mas já vai dormir, Lua? Não quer esquentar a cama?
- Vai pro inferno, Arthur.
Depois que eu falei, foi que me dei conta exatamente do que tinha dito. Eu nunca xingava. Minha educação era algo de que eu mais me orgulhava e naquele momento parecia uma menina de rua malcriada. Deus!
Olhei para Arthur, pronta para pedir desculpas, mas ele ria deslavadamente, como se fosse muito engraçada toda aquela situação. Se era para ele, com certeza não o estava sendo para mim. Do que ele estava rindo? Do meu constrangimento? De ter me ouvido falar algo tão rude quanto “vai pro inferno”? Eu podia gritar, rosnar e quase ficar a ponto de assassinar alguém, mas nunca, nunca, passava dos limites. Não como eu fizera agora.
- Eu adoro te fazer perder o controle. Te deixa mais humana. Menos robótica. E olha que eu estive em planetas completamente robotizados e nunca conheci alguém tão automática quanto você.
Abri minha boca, pensando em um insulto muito grave, equivalente a ser chamada de robótica por aquele alien infeliz. Arrogante, prepotente, infeliz. Minha cabeça formulava pelo menos cento e cinquenta xingamentos para Arthur e toda a sua linhagem, mas me segurei. Eu não era esse tipo de pessoa. Fora apenas uma perda de controle momentâneo. Não aconteceria de novo, eu cuidaria para que não acontecesse de novo. Não perder o controle por raiva, nem por desejo.
- Não sou robótica.
Rebati com firmeza. Eu controlava minhas reações, apenas isso.
- Sim. Você é. Não se cansa de ficar sempre guardando sentimentos, sempre pensando no que as pessoas vão pensar de você? Dê vazão aos seus instintos, Lua.
- E o que eu ganharia com isso? Liberar os meus instintos não me levará a lugar nenhum.
Arthur se levantou com a sobrancelha erguida, de um modo que já estava se tornando familiar a mim. Ele estava pronto para me seduzir novamente, e isso significava que eu deveria estar pronta para resistir. Se eu não resistisse, estaria à mercê dele. E qual seria o mal nisso? Uma voz na minha mente me perguntou porque eu não poderia me entregar a Arthur de uma vez e acabar logo com aquela história. Mas era aí que estava o problema. Eu não deveria me entregar porque eu prometera a mim mesma que não me submeteria a homem nenhum sem que ficasse provado que ele era a minha alma gêmea, e qualquer um tinha que concordar que Arthur não era a minha alma gêmea. Ele era um alien metido e prepotente. Como ele poderia ser a pessoa destinada para mim?
- Te dará satisfação. Não quer satisfação essa noite, Lua?
Querer satisfação? Claro que eu queria. Mas não com Arthur. Meu Deus, quando eu pararia de mentir para mim mesma?
- Te dará satisfação. Não quer satisfação essa noite, Lua?
Querer satisfação? Claro que eu queria. Mas não com Arthur. Meu Deus, quando eu pararia de mentir para mim mesma?
- Não, obrigada. Quero dormir pacientemente na minha cama, enquanto você faz o que quiser na sala. Durma com as estrelas, Arthur.
Me virei de costas para ele e dei boa noite apenas quando já estava na porta do quarto, remotamente segura. Soube naquele momento que não devia ter virado a cabeça para despedir-me, fora o erro da noite. A visão que eu tivera me deixara em alerta durante toda a noite, com um calor insuportável que poderia jurar que estávamos em julho, mas era novembro. O calor vinha de dentro de mim, enquanto minha imaginação repetia como um filme, a imagem de Arthur jogando a camisa para qualquer lado da sala, revelando um peito amplo e forte, com algumas cicatrizes e desabotoando a calça com tanta vagarosidade, que meu coração acompanhou a sua demora, batendo lentamente. Eu pensei que não poderia mais respirar quando aquele corpo se revelou sobre os meus olhos. Pensei que não poderia sentir meu coração bater. Não prestei atenção nos curativos dele. Cuidaria disso na manhã seguinte. No momento eu estava prestando mais atenção naqueles braços fortes e na vagarosidade com que ele tirara as calças. Céus! Meu corpo estava trêmulo por apenas pensar que se eu me rendesse poderia ter o corpo dele no meu. Minha imaginação estava enlouquecida naquela noite, eu dormia sonos leves e repletos de imagens sensuais de nossos corpos enroscados na minha cama e em outros cômodos do meu apartamento.
Mas em certo momento, eu realmente fui pega pelo sono mais profundo, sentindo o meu corpo ser prensado sobre o dele na cama enquanto as mãos de Arthur se deslizavam por ele, acariciando e apertando onde ele sabia que meu corpo estava desejoso por ele. Meus sussurros eram muito reais. O calor do corpo dele era bem real. Tudo parecia ser bem real, a boca úmida dele em meu pescoço, arrancando-me suspiros cada vez mais altos parecia ser verdadeira.
De repente me agarrei a ele, deixando o meu corpo se contorcer em espasmos fortes e enlouquecedores e quando o meu corpo já estava relaxado, abri os olhos para encarar os olhos deArthur, mas não vi nada a não ser o meu quarto banhado na luz do sol que já nascera e percebi que eu estava descoberta, quente, e trancada dentro do meu quarto, com a mente perdida em pensamentos. Estava cansada demais de tanto dormir e acordar de pequenos sonhos quentes e que me deixaram desejosa.
Mas aquele último sonho fora tão real. Eu quase sentira as mãos de Arthur realmente me tocarem, como se ele realmente tivesse estado no meu quarto. Olhei em volta, tentando ter certeza de que ele realmente não estivera e vi que a bagunça de travesseiros e cobertores era algo que apenas uma pessoa poderia fazer. Além do mais, a porta continuava trancada.
Levantei-me e tomei um banho bem gelado, para acordar de vez a minha mente. Meu corpo já estava mais que desperto, as sensações nas que eu me inundara no sonho foram capazes de me fazer acordar saciada na realidade. Vesti uma camisa branca e meus jeans justos, acompanhados de sapatos fechados de salto alto, o meu bom e velho uniforme de trabalho. Simples e sóbrio que não permitia que os homens fizessem comentários sem graça sobre o meu corpo. Eu ousara trabalhar com um vestido verão uma vez, em uma das tardes mais quentes da história de Nova York, e depois daquela vez, nunca mais. As mulheres fofocavam sobre mim nos banheiros do andar e os homens não paravam de andar pela redação, fazendo meu chefe botar todo mundo para correr e me dar uma bronca horrível por ficar disseminando os pecados da carne pelos corredores do jornal.
Respirei fundo com todo o cuidado possível de me lembrar o meu tão especial mantra, que já provara não funcionar, e abri a porta bem devagar para evitar ver Arthur nu logo de manhã. Eu ainda tinha planos de conseguir trabalhar direito para adiantar o serviço até o dia de ação de graças, mas se visse Arthur nu, eu poderia esquecer de ir trabalhar porque não conseguiria nem ao menos entrar no trem. Quem sabe até nem me lembrasse como sair de casa.
Com cuidado, sai do quarto, segurando a minha pasta contra o peito como um escudo contra Arthur, meio curvada e andando nas pontas dos pés para evitar que ele me ouvisse, caso ainda estivesse dormindo. Ele não estava na sala, por isso levantei meu corpo e passei a andar direito, andando com mais segurança para a cozinha, acreditando que ele já devia estar no banheiro. Atravessei o curto caminho entre meu quarto e a cozinha e encostei-me à geladeira de uma vez, assustada quando Arthur saiu de baixo do balcão, apenas com as calças jeans e um pacote de café nas mãos.
- Céus, quer me matar?
Eu não disse do que ele poderia me matar. Podia ser de susto, raiva ou prazer. E junto com esses meus pensamento, Arthur deu uma risada, parecendo perceber as imagens que passaram na minha cabeça dele me matando de prazer lentamente, que me fizeram delirar e encostar ainda mais no metal frio da geladeira, tentando esfriar o calor de meu corpo. O olhei séria e por alguns instantes foi como se as cenas que passavam na minha mente também estivessem passando na mente dele, como se o mesmo filme estivesse passando em telas diferentes, conectados. Assim como os nossos olhos estavam conectados.
Desviei o olhar e prestei atenção na cafeteira já ligada e já com café quente. Do jeito que eu precisava em manhas turbulentas. E com certeza já acordar com imagens mentais de noites loucas entre Arthur e eu, poderia escalar aquela manhã como uma manhã turbulenta. Enchi uma de minhas canecas extra grandes e a bebi com gosto. Estava muito bom e não parecia ter sido feito por Arthur, ou então aquilo estaria grosso e pastoso, digno de se comer de colher. Mais como uma sobremesa quente do que realmente café.
- Já tomou café? - ele balançou a cabeça, negativamente com o pacote de pó de café nas mãos. Por isso eu coloquei café em uma caneca do mesmo tamanho que a minha e a entreguei a ele, sentindo um calor estranho quando nossas mãos se tocaram, mesmo que por apenas alguns segundos. - Beba depressa e vá se vestir, pois temos que ir. Você passará o dia com aMel.
Ele ergueu as sobrancelhas me encarando com firmeza para perguntar em seguida.
- E por que não com você?
- O emprego dela é mais liberal que o meu.
Dei a resposta rápida, enquanto juntava alguns papéis de dentro da pasta e os organizava de acordo com a importância para o dia. Olhei para o lado e vi Arthur me observando ao invés de estar terminando o seu café e ir se arrumar para podermos sair logo de casa e irmos para o Brooklyn que não era assim tão perto de casa.
- O que está esperando para ir se arrumar? Não temos todo o tempo do mundo.
- Já pensou em ser sargento, comandante ou algo do gênero? - ele riu. - Combina bem com você e esse seu jeito tão automático.
- Não, não pensei. - respondi terminando de organizar os papéis e olhando nos olhos castanhos que me tiravam do sério - E você? Sempre pensa em cair em planetas estranhos e perturbar a vida de outras pessoas?
Eu respondi a ele com um insulto bem raivoso e ele ergueu as sobrancelhas de modo bem ameaçador antes de responder a mim com a voz raivosa, encarando-me completamente furioso.
- Não. Mas abro exceções quando caio em planetas inferiores.
Seus olhos faiscavam como se ele fosse me bater. Eu conseguia ver as chamas ardendo naquela profundeza cor de chocolate, e ao invés de sentir medo, tudo o que eu consegui senti foi um tremor percorrendo todo o meu corpo, me deixando quente e desejosa de que aquelas chamas me consumissem bem lentamente.
- Acha que eu sou inferior? Se eu sou tão inferior, por que quer tanto me conquistar?
- Porque... - Arthur se aproximou e eu ergui meu rosto na direção dele, sentindo toda a tensão fazer firula no pequeno espaço entre nós. Ele conseguia fazer com que a tensão nos abraçasse como se tivesse vários tentáculos, impedindo-nos de sair daquela tensão.
- Por quê?
Arthur continuou se aproximou ainda mais de mim e ficou com os olhos mais faiscantes ainda. Ele me agarrou pelo braço e me puxou na sua direção, me fazendo encostar meu peito no seu, sentindo o calor dele passar para o meu corpo numa transmissão de calor, tão intensa que me fez perder o fim de controle que eu tinha. Minha camisa era grossa, ideal para dias frios como o que estava fazendo, mas Arthur conseguia passar o seu calor através dela como se eu estivesse nua, sentia o calor de sua pele na minha sem precisar de muito esforço. Ele simplesmente irradiava sobre mim todas as suas chamas de calor, e não apenas por sua pele, seus olhos também enviavam ondas de calor para mim. A boca de Arthur abaixou-se, quase tocando a minha. Meu coração estava mais disparado a cada simples segundo e quando pensei que finalmente nos beijaríamos, Arthur se afastou, pegando a caneca de café de cima do balcão, onde colocara quando começara a discutir comigo e foi para a sala, colocar uma roupa para sair. Parecendo tão perturbado quanto eu, com os ombros rígidos e a testa franzida.
E se eu tinha alguma esperança de trabalhar naquele dia, eu poderia esquecê-la.
Tentei me distrair com os papéis de minha pasta e meu café quente e delicioso. Mas de nada adiantou. Meu corpo ainda estava trêmulo, minha cabeça ainda estava sintonizada em que meu corpo necessitava e pedia desesperadamente. O calor de Arthur novamente. Era muito injusto ele me deixar provar de seu calor e depois tirá-lo tão vilmente. Era como me deixar provar do céu e me tirar de lá em seguida, tão injusto que eu não podia nem ao menos descrever. Ter os seus lábios quase nos meus fazia com que tudo parecesse tão irreal que a única prova que eu poderia ter de que aquilo era realidade era a mancha de café no chão de quando Arthur me puxara contra si e minha caneca de café entornara, derramando um pouco do liquido escuro no chão, mas nem ao menos percebemos isso no momento.
Respirei fundo, pela oitava vez naquele dia e obriguei-me a ficar calma que daria tudo certo. Apenas mais alguns dias e não veria Arthur nunca mais. E eu não sabia se isso era bom ou ruim.
Minutos depois, Arthur parou ao meu lado dizendo ranzinzamente que já estava pronto para irmos. Fechei o meu apartamento e saimos do prédio. Nas ruas, as pessoas nem se demoravam olhando para nós. Na verdade pareciamos pessoas normais, uma mulher de negócios acompanhada por um metido a skatista, nada que qualquer um não visse todos os dias no Village, casais estranhos não eram muito difíceis de ver no meu bairro, mas era aí que estava o problema. Não éramos um casal.
Andar com Arthur pelas ruas do Village não era tão difícil, mas entrar no metrô que nos levaria até Brooklyn foi o momento mais difícil que da nossa jornada.
Ele não conseguia parar de olhar para todos os lados, fascinado com a quantidade de pessoas andando de um lado para o outro, sem pararem para nada, continuando seus caminhos, o que era mais que comum em Nova York. O metro parecia tão normal para mim, que nasci e fui criada em Nova York, que não consegui entender o fascínio que ele despertava em Arthur, que quase babava de tão empolgado que estava com tudo o que via.
Em poucos minutos, já havíamos chegado à estação do Brooklyn, sem nem ao menos nos falarmos por um segundo que fosse. Desde que saíramos do apartamento, eu e ele não havíamos dirigido a palavra um para o outro. Só vi que ele estava admirado com os trens e metrôs pelo brilho de seus olhos, e apenas divisei-os por breves momentos. Estávamos brigados e eu pensava que era melhor continuarmos dessa forma.
Brigada com Arthur eu não pensava nele de uma forma sexual. Era mais fácil lidar com ele com aquele bico enorme e aquela cara contrariada do que tentando me seduzir. Porque eu sabia que não resistiria a ele por muito tempo. Sem falar comigo era impossível que ele fizesse qualquer brincadeirinha para cima de mim.
Bati na porta da loja de produtos exotéricos onde Mel trabalhava e abri a porta, sendo anunciada pelo simpático sininho de vento que fez barulho assim que eu entrei. Mel colocou a cabeça para fora da sala de Reik e me lançou um sorriso radiante, vindo até nós.
Com um abraço apertado, ela me cumprimentou e não me deixou falar ou perguntar nada dando um beijo no rosto de Arthur em seguida. Olhei ao redor procurando Chay, mas ele não pareceu estar por perto.
Mel percebeu que eu estava procurando por ele e deu uma piscadela para mim, me fazendo dar uma risada da minha amiga louca. Olhei no relógio de parede em números romanos, em cima do balcão e vi que teria de me apressar. Mas Mel segurou a minha mão, provando que não me deixaria sair de lá tão cedo.
- O Chay está lá dentro, organizando algumas coisas. - explicou ela para nós dois e fez um sinal para que Arthur fosse até lá.
Ele andou todo empertigado na direção que Mel indicou e nem ao menos se virou para trás, mostrando que ainda estávamos brigados. E como eu já dissera, era melhor assim.
- Preciso ir, amiga. - me despedi quando vi Mel vindo fazendo aquela sua familiar cara de quem iria me contar a sua noite.
E não. Eu realmente não precisava saber disso. Não naquele momento.
- Precisa nada. Você ainda tem oito minutos.
- Sim. E isso significa que eu chegarei atrasada à redação. Estou no Brooklyn.
Ela inclinou a cabeça e me fez rir da carinha de cachorro perdido que ela utilizou para me convencer a ficar mais um pouco e escutar suas histórias. Mas eu realmente não tinha tempo. Se realmente quiséssemos levar os dois para Wyoming na sexta, eu teria que adiantar todo o meu serviço para não precisar trabalhar no feriado. Que era exatamente o que eu pretendia fazer antes de dois aliens caírem, literalmente, em nossas vidas.
- Por favor?
- Te ligo mais tarde. - disse abrindo a porta e mandando um beijo para ela, correndo porta afora, e não metaforicamente.
- Lua. - ela gritou. - Eu vou sintetizar para você saber, não quero guardar essa informação comigo por muito tempo. - eu parei lançando um olhar implorativo para que ela não me contasse nada. - Mentoladas arrasam, mas as de chocolate esquentam e o Chay, bem, o Chay tem uma energia que mortal nenhum poderá igualar!
Corri porta afora escutando as risadas de Mel atrás de mim. Ela era uma louca, mas eu já sabia disso há muito tempo, mas só agora notei que ela precisava de ajuda profissional. E urgente.
Com quinze minutos de atraso, cheguei a minha redação escutando meu chefe rugindo atrás de mim querendo as matérias que eu prometera revisar naquele fim de semana. Fiquei tentada a dizer que eu não revisara coisa nenhuma porque eu encontrara uma nave espacial de merda e tive que me livrar de um alien que queria me seduzir. Mas eu sabia que meu chefe além de me mandar para casa, chamaria uma ambulância para me levar, de camisa de força, para uma clinica psiquiátrica.
E eu não poderia culpá-lo. Eu era uma pessoa racional e por vezes achava que tudo aquilo era um sonho maluco e estava vivendo aquilo, contar para alguém parecia ainda mais maluco e irreal.
- Você tem quinze minutos para fazer isso ou vou esquecer que é minha melhor redatora e te mando para o olho da rua, entendeu, Blanco?
Fiz que sim com a cabeça, abracei-me à minha pasta e corri para a minha sala. Quinze minutos depois, meu chefe estava com as matérias revisadas em seu e-mail e eu já podia revisar as matérias do dia, mais relaxadamente, grata pelo excesso de serviço impedir-me de pensar em Arthur. E começava a fazer justamente isso, quando a srta. Marcie abre a porta e avisa que tem um casal estranho me procurando.
Estranho com certeza seria uma descrição muito boa para Mel. Mandei Marcie mandá-los entrar e quando o casal adentrou a porta, pude ver que a palavra estranha não servia apenas para descrer Mel.
Uma mulher alta de cabelos tão vermelhos que pareciam cor de rosa, entrou na minha sala, vestida com um terninho preto muito elegante e justo, acompanhada de um cara igualmente alto com os cabelos escuros rebeldemente penteados e um terno também na cor preta.
Levantei-me de minha cadeira e apertei a mão dos dois, perguntando em que podia lhes ser útil e quase caí para trás quando eles se apresentaram.
- Somos Izzy Johhston e Noah Galwind, da ARE. - disse ela.
- Agência de Relatório Extraterrestre. - explicou o homem - E queremos lhe fazer algumas perguntas.
Eu estava ferrada.
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